Relutei muito pensando se deveria ou não manifestar opinião aqui no PodPá! durante a corrida eleitoral e, principalmente, se deveria falar (mais uma vez) do Bolsa (Bolsonaro).

Quem acompanha o podcast e a nossa série candidatos, já sabe mais ou menos qual é o meu alinhamento político e as ideias que eu acho interessantes. De qualquer modo, este artigo não será ideológico nem pra lá nem pacá: vamos apenas discutir algo que vem acontecendo CONSTANTEMENTE e que, se continuar assim, podemos ter um fenômeno muito interessante.

Corrompeu-se

Na guerra dos tronos que é a disputa eleitoral (uma vez que o “Rei” foi deposto, e vários se acham dignos de sucedê-lo) todos os candidatos devem ser tratados igual pelos meios de comunicação que não são alinhados a nenhuma ideologia. Há, entre as grandes emissoras, um acordo de cavaleiros, onde todos informam sobre a campanha dos presidenciáveis e, quando rola alguma entrevista, a postura é sempre de questionar erros ou polêmicas da carreira do candidato, sem abrir espaço para a apresentação de propostas. Nos debates, provavelmente pela busca de audiência, busca-se quase sempre o embate, uma discussão (na maioria das vezes pouco produtiva) do que a abertura para que cada candidato fale sobre como enxerga o Brasil e o que se propõe a fazer pelo país.

Não se busca propostas, se busca apenas brigas.

Paralelo a isso, ainda temos o fato que está cada vez mais gritante dos jornalistas que estão cada vez menos imparciais. É notável que muitos profissionais têm mais afinidade com um partido, com um candidato em si. E aqui temos que pontuar que NÃO EXISTE nada errado nisso, afinal o jornalista, o profissional da comunicação, também é eleitor, também é um cidadão brasileiro e tem seus direitos e suas preferências, mas isso NÃO PODE transparecer para o seu lado profissional, principalmente se estamos falando de um profissional que trabalha cobrindo a política, que trabalha mediando debates.

Tal como no jornalismo esportivo ninguém revela o seu time, no jornalismo político ninguém deveria revelar seu partido durante o exercício do trabalho.

Falem mal, mas falem de mim

Desde 2014, essa é a estratégia do Bolsonaro. Quase ninguém percebe isso e acaba o ajudando ainda mais. Bolsonaro já frequentou programas de TV como Luciana Gimenez, Sonia Abrão e por aí vai, estes programas OBVIAMENTE o convidavam para ele discutir com alguém, falar alguma polêmica, e dar audiência. E assim foi até 2018, com o anúncio da sua candidatura.

O problema é que isso NÃO MUDOU! As emissoras, os jornalistas, continuam colocando Bolsonaro em um palco, com vários holofotes, e continuam fazendo as mesmas perguntas, sendo que ele continua com as mesmas respostas, baseadas na sua estratégia que sempre foi: Falem bem ou falem mal mas falem de mim. Pois o importante aqui é ocupar a esfera de atenção.

A esfera

Que esfera é essa? Isso é um conceito amplamente estudado pelo filosofo e sociólogo Jürgen Habermas, que aqui procuramos descrever brevemente o seu funcionamento (links e referências para quem quiser saber mais estão no final do artigo, vale a pena a leitura).

Esfera Pública desenvolvido pelo alemão Jürgen Habermas

A esfera pública de comunicação nada mais é que a dimensão na qual os assuntos públicos são discutidos, mostrando quais são seus atores, e quais são os focos de atenção. Se fizermos um pequeno exercício, perceberemos que a mídia e a sociedade sempre estão focadas em certos assuntos que mudam com o passar do tempo. Com certeza você já teve aquela impressão de, “mas que chatice, a TV só fala da mesma coisa”, ou algo do tipo.

Como funciona normalmente…

O domínio

Nada demais até aqui. A esfera pública serve para que os assuntos e os interesses da sociedade cheguem a níveis maiores com poderes de decisão, e isso é importante para a sociedade. Porém, aqui entra, e ajuda muito a explicar, o fenômeno Bolsonaro. Ele praticamente domina cada vez mais os assuntos, as discussões, a mídia. E aqui não estamos filtrando citações positivas ou negativas: estamos apontando que quem gosta apoia e se manifesta a favor dele e quem não gosta se manifesta muito mais. Quando passamos para o segundo nível da esfera, esse feito se intensifica, pois, a mídia reproduz a mesma polarização da sociedade para os debates.

Ao invés de a mídia se preocupar em analisar o candidato como UM CANDIDATO À PRESIDÊNCIA, estão mais preocupados em provar ou fazer ele assumir que é machista, fascista, taxista, homofóbico e por aí vai.

Como funciona hoje…

Se fossemos ilustrar, seria como uma fogueira, quem tenta “derrubar” o Bolsonaro que, ao invés de controlar a chama, joga álcool. Isso faz a chama brilhar, e quanto mais ela brilha, mais pessoas veem, e, consequentemente, mais ficam interessadas sobre.

Isso, naturalmente, gera um holofote, uma propaganda quase gratuita para um candidato que não tem sequer 10 segundos de televisão mas já domina as pesquisas de interesse do Google, por exemplo.

Interesse dos eleitores no debate Band Eleições 2018

Feito o desabafo

Não estou apoiando ou criticando o candidato Bolsonaro, nem suas ideias para o Brasil, sobre isso eu já falei aqui. Apenas tentei mostrar que Bolsonaro não deveria ser nada na corrida eleitoral. Com todo o respeito ao candidato mas ele não tem partido forte, não tem coligações grandes, não é bem visto por boa parte dos eleitores, não tem propostas claras para diversos assuntos, então por que ele está aonde está? É essa reflexão que eu convido vocês a fazerem junto comigo.

Mais uma vez, com todo respeito ao candidato e aos seus eleitores, mas para resumir:

Enquanto houver quem bata palma, o louco não deixará de dançar

Links e Referências:

https://casperlibero.edu.br/wp-content/uploads/2014/05/Os-meios-de-comunicação-na-esfera-pública.pdf
Outra analise sobre este tema (que inspirou este artigo)
Jurgen Harbemas                         

Apenas um rapaz latino americano que busca seu lugar ao Sol, formado em Tecnologia da Informação porém amante de humanas. Ao se deparar com diversas situações do dia a dia, reflete sobre todas elas, e dessas reflexões as vezes sai uns conteúdos bons que a gente posta por aqui mesmo.